Vimos no último verbete como o Estado-de-polícia surgiu na Alemanha do século XVII, no seguimento do movimento político europeu dos teóricos da Razão de Estado do século XVI protagonizado, nomeadamente, por Jean Bodin, em oposição à tese franciscana, dos séculos anteriores, do poder absoluto do Papa. O absolutismo político do soberano, que se desenvolveu plenamente em França --- e em Inglaterra até ao terceiro quartel do século XVII [até à revolução inglesa que destituiu Cromwell] --- , surgiu em oposição à tese franciscana medieval do poder absoluto do Papa.
O intenção deste verbete é tentar fazer uma analogia — e não uma comparação! — entre o Estado-de-polícia alemão dos século XVII e século XVIII, com o que se passa hoje em Inglaterra.
O Camaralismo alemão, entendido como o desenvolvimento natural da teoria da Razão de Estado de Bodin, por um lado, e da sua adequação às características luteranas da Alemanha mediante a construção do conceito de Estado-de-polícia ou Wohlfahrtsstaat, por outro lado, é o prelúdio do que chamamos hoje de “Estado burocrático” que, apenas aparentemente, se opõe ao Estado de Direito liberal. Esta oposição entre o Estado-de-polícia e o Estado de Direito liberal é apenas aparente porque, em última análise, o desenvolvimento e evolução natural do Estado de Direito liberal parece descambar regularmente em um qualquer Estado-de-polícia, ou mesmo num totalitarismo [Alemanha, 1933].
A evolução do Camaralismo alemão e do Wohlfahrtsstaat é complexa, e não cabe aqui desenvolver o tema. Basta dizer que existiram duas teses ou teorias principais: a primeira, protagonizada pelo teórico camaralista Ludwig von Seckendorf (1626 – 1692), e a segunda pelo polémico teórico político austríaco Johann Heinrich Gottlob von Justi (1720 – 1771). que elevou o Camaralismo clássico segundo Seckendorf, a uma metafísica política.
O Estado-de-polícia pode ser resumido nos três seguintes conceitos de Christian Wolff: securitas, tranquilitas et sufficientia vitae. A securitas é a segurança em relação ao exterior; a tranquilitas é a segurança interior do Estado, e a sufficientia vitae é a imposição coerciva estatal do modelo de felicidade e do modo de vida dos súbditos.
Num Estado-de-polícia não existe propriamente uma religião de Estado: antes, o Estado é a própria religião.
Quando um país tem uma religião de Estado (por exemplo, o estatuto actual da Igreja Católica em Itália), a religião coexiste com o Estado mas aquela não se confunde com este. No Estado-de-polícia — como aconteceu na Alemanha da Wohlfahrtsstaat — o próprio Estado é constituído como uma religião imanente à sociedade, e de tal forma que, no seu ensaio Ideen zu einem Versuch, die Gränzen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen, o filósofo prussiano Wilhelm Humboldt (1767 – 1835) recusou radicalmente qualquer pretensão do poder público a intervir no sentido do “bem positivo” dos súbditos — nos âmbitos da saúde, da riqueza, educação, moralidade, assistência, etc.. E Kant já tinha anteriormente escrito no seu ensaio Teoria e Prática (1793):
“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo — tal o do pai para com os seus filhos, quer dizer, um governo paternal —, onde, por consequência, os sujeitos, tais filhos menores, incapazes de decidir acerca do que lhes é verdadeiramente útil ou nocivo, são obrigados a comportar-se de um modo unicamente passivo, a fim de esperar, apenas do juízo do chefe do Estado, a maneira como devem ser felizes, e unicamente da sua bondade que ele o queira igualmente — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber.”

O que se passa hoje em Inglaterra é uma versão contemporânea do Estado-de-polícia em que o secularismo de Estado se assume como uma religião de Estado que impõe coerciva e repressivamente um certo tipo de moralidade a toda a sociedade, por um lado, e em que o próprio Estado é elevado ao estatuto de deidade religiosa. Vemos como o Estado de Direito liberal, que até há pouco tempo existia em Inglaterra, evoluiu rapidamente para um Estado-de-polícia. Este fenómeno de evolução do Estado de Direito liberal para o Estado-de-polícia parece ser uma tendência actual em toda a Europa.